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Fim de século, começo de milênio
Onde nós estamos? Aonde vamos?

A mudança de ano sempre nos leva a refletir sobre passado e futuro, especialmente nestes dias de final de milênio.

A explosão demográfica e o avanço tecnológico sem precedentes foram características marcantes deste século.

Lamentavelmente, este crescimento em ambas as áreas não foi acompanhado de uma evolução apropriada dos valores morais, éticos e culturais da humanidade.

De 1900 para cá a população do mundo passa de 1,6 para 6 bilhões de habitantes, enquanto que no Brasil salta de 17 para 160 milhões.

O avanço da ciência cresce em ritmo exponencial. O desenvolvimento da radiologia (1895), a eletrocardiografia (1903) e a medição auscultatória da pressão arterial (1905) dão impulso à cardiologia do começo do século. Hoje existem inúmeros recursos à nossa disposição, de complexidade variável e nem sempre corretamente utilizados. O arsenal terapêutico oferece milhares de produtos, às vezes usados em excesso. A cirurgia e sistemas eletromecânicos de assistência à vida conseguem nos últimos 50 anos feitos que seriam inimagináveis no começo do século.

A medicina genética abre impressionantes perspectivas para o futuro, trazendo consigo implicações éticas que deverão ser muito bem definidas.

E como tudo isto nos afeta?

O médico de família de décadas atrás compensava a falta de recursos tecnológicos com uma observação cuidadosa e seu raciocínio aguçado para chegar ao diagnóstico correto. Hoje, que os métodos diagnósticos são inúmeros, é nossa responsabilidade usa-los criteriosamente, sempre como auxiliares e nunca como substitutivos de uma boa história clínica, para não corrermos o risco de transformarmo-nos em atacadistas da medicina.

A mesma responsabilidade existe na escolha terapêutica, ignorando modismos de marketing e procurando aquelas condutas sustentadas por estudos apropriados e experiências sólidas, tratando sempre cada paciente como um todo, de acordo com as suas necessidades individuais.

 

Enfim, que os avanços tecnológicos não nos levem nunca a renunciar a parte mais nobre de nós mesmos, que é de sermos humanos com os pacientes, entendendo por humanidade o espírito aberto para a compreensão da sua dor.

O novo milênio está começando sob a sombra da incerteza do impacto que o "bug do ano 2000" terá na nossa vida diária. Esperemos sinceramente que a humanidade não padeça da existência de um outro "bug" na sua constituição: o do egoísmo e da falta de valores éticos e morais adequados que nos levem a esquecer a própria essência de nossas vidas, que é a de ajudar o próximo e colaborar com o nosso grão de areia para tornar este mundo um pouco melhor.

Ricardo J. Miglino
Diretor da Cardios