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Taquiarritmias
Supraventriculares: com excessão
do flutter/fibrilação atrial do récem nato, os mecanismos são idênticos
aos dos adultos: participação de uma via anômala ou de uma dupla via de
condução nodal AV ou de um foco ectópico com origem atrial.
O flutter/fibrilação atrial do récem nascido ocorre mais freqüentemente
em crianças de baixo peso, não sendo raro observar a arritmia ainda
durante a fase intra-uterina, sendo causa de hidropsia fetal. É possível
que a sua ocorrência se relacione a uma imaturidade autonômica atrial. Não
é raro observar resposta ventricular tipo 1:1 com freqüência cardíaca
superior a 300 p/minuto. O Holter
mostra um padrão característico (figura B).
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| Figura
B: Paciente masculino, 20 dias. Flutter atrial com as ondas F bem evidenciadas na
derivação superior. |
Nas formas clássicas de taquicardias paroxísticas a mais
observada é aquela por uma
via anômala. Duas formas especiais de ocorrência em idade pediátrica
devem ser assinaladas: as taquicardias atriais com um ou mais focos ao nível
da musculatura atrial e a do tipo Coumel. Não raro ambas adquirem um caráter incessante ( ocupando período > 80% das 24 horas), podendo
produzir quadros de taquicardiomiopatia. O diagnóstico pelo Holter não
é dificil, podendo ser observado na figura C e D. Com o advento das técnicas
de ablação por cateter essas taquicardias poderão ser definitivamente
controladas.
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| Figura
C: Paciente masculino, 14 anos. Taquicardia atrial incessante. Os
complexos QRS estão precedidos de ondas P, ocorre um súbito
esgotamento da taquicardia com aparecimento de dois complexos de
origem sinusal e retorno ao ritmo ectópico.
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| Figura D: Paciente feminina, 9 anos. Taquicardia
tipo Coumel, também incessante. Ondas P negativas e profundas precedendo
os complexos QRS. |
Avaliação
das Arritmias Ventriculares
Não é infreqüente o registro de arritmias ventriculares em crianças
e adolescentes. Levantamos recentemente os dados dos últimos 230 pacientes
recém-natos,
crianças e adolescentes com registros de 24 horas, observando arritmias
ventriculares em 38 (16,5%). Em quinze (39%) o coração mostrava-se
estruturalmente normal pelos exames de rotina. As arritmias ventriculares
observadas incluiam: extra-sístoles isoladas ou em par, TV não sustentada
(> 3 despolarizações com FC > 100 por minuto) e sustentada (> 30
segundos).
Extra-sístoles ventriculares: nos 38 pacientes o mais freqüente foi a presença de
extra-sístoles ventriculares isoladas ou em par. Comparando-se a morfologia
das extra-sístoles (BRE ou BRD) entre os grupos com (23 pacientes) e sem
(15 pacientes) cardiopatia observamos que a mesma poderia diferenciar as
duas populações. Quatorze dos 15 normais mostravam uma morfologia tipo BRE
contra 9/23 com cardiopatia. A presença de uma extra-sístole em criança e
no Holter com morfologia tipo BRE definiu um coração estruturalmente
normal com uma sensibilidade de 93%, especificidade de 60% e valor preditivo
positivo e negativo respectivamente de 60 e 93%. Assim o Holter é um
excelente método para definir a importância de uma extra-sístole (figura)
podendo como veremos a seguir sugerir a origem do foco
arritmogênico.
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| Figura A: (feminina 10 anos) a forma mais observada de
extra-sístole ventricular em corações normais: a morfologia
do tipo BRE. |
Taquiarritmias
ventriculares monomórficas: como
já mencionado não é rara a observação de taquiarritmias
ventriculares em pacientes com idade pediátrica. Existem
algumas formas específicas de taquiarritmias ventriculares
com manifestação precoce que se prolongam pela idade
adulta. A grande fonte de distúrbios do ritmo em crianças
é sem dúvida o trato de saída de ventrículo direito. Com
origem nesse local podemos observar a ocorrência de extra-sístoles
isoladas, TV não sustentada e sustentada e uma forma
especial chamada de taquicardia monomórfica repetitiva do
tipo Gallavardin.
Existindo
um foco ectópico em trato de saída de VD, este produzirá
despolarizações desta cavidade para VE e de cima para
baixo produzindo uma
ectopia com morfologia do tipo bloqueio de ramo esquerdo
(BRE - ativação de septo direito para esquerdo)
e com orientação inferior no plano frontal (ECG de
superfície). Assim, em pacientes com coração
estruturalmente normal, uma taquiarritmia com morfologia
tipo BRE sempre sugere
uma origem em VD, sendo esta morfologia a mais observada em
crianças com extra-sístoles como. Acentuamos que no Holter
o padrão tipo BRE ou BRD deverá ser identificado no canal
inferior (V5) pela ausência ou presença de ondas S
respectivamente. A derivação V2 freqüentemente mostra
ondas R puras pela orientação bem anterior da ativação
imposta por um foco em trato de saída de VD. Uma forma
especial de taquicardia ventricular observada em crianças
é a chamada monomórfica
repetitiva (Gallavardin). Em mais de 70% dos casos tem
origem em trato de saída de VD (morfologia tipo BRE).
Nota-se a presença de taquicardia ventricular alternando
com momentos de ritmo sinusal como mostrado na figura .
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| Em
B (feminina, 3 meses) a TV tipo monomórfica
repetitiva (Gallavardin) com alternância de episódios
de TV não sustentada e de ritmo sinusal. |
Taquicardias
ventriculares sustentadas podem ter origem a partir de um
foco em ventrículo direito. A morfologia obedecerá as
regras da ativação (BRE). Essas taquicardias podem ser de
carater idiopático, muitas vezes relacionadas com os exercícios.
No entanto, há necessidade de estabelecermos o diagnóstico
diferencial com a displasia arritmogênica do ventrículo
direito pois os prognósticos são bastante distintos. As
taquicardias ventriculares ditas fasciculares ocorrem por um
foco ectópico com origem no
ou próximo do fascículo póstero-inferior esquerdo
(muito mais raramente no ântero-superior). Tem como
característica apresentar uma morfologia tipo BRD (ativação
oposta a descrita para o trato de saída de VD) e um eixo elétrico
desviado para à esquerda no plano frontal (ECG convencional
- entre –30 e –60 graus). São precipitadas freqüentemente
por exercícios físicos sendo sensíveis ao verapamil ou
adenosina. No Holter vamos observar uma TV com morfologia
tipo BRD e orientação negativa dominante do complexo QRS
nos canais inferiores (figura C). A maioria dos pacientes
relata sintomas durante esse tipo de taquiarritmia. Frente a
possibilidade de cura completa por técnicas de ablação
por cateter, o diagnóstico desse tipo de taquicardia
ventricular é muito relevante.
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| Em
C (masculino, 10 anos) uma TV fascicular, com
morfologia de BRD e induzida durante atividade física. |
Taquicardia
ventriculares polimórficas: na síndrome congênita do
QT longo existe um anormal prolongamento da repolarização
ventricular conseqüente a mutações genéticas que
produzem importantes alterações na dinâmica dos canais
celulares de potássio ou sódio. Embora a síndrome se
exteriorize através de um prolongamento do intervalo QT,
este poderá encontrar-se com valores limítrofes
dificultando o diagnóstico. O Holter é muito útil para a
avaliação da síndrome congênita do QT longo. Fornece
importantes subsídios para o diagnóstico
através da determinação das flutuações dos
intervalos QT nas 24 horas, da mutabilidade na morfologia da
onda T definindo ou não a presença de alternância elétrica
da repolarização ventricular e finalmente representa o método
ideal para avaliação da eficácia terapêutica com o
propranolol. A análise da mutabilidade no padrão da onda T
nas 24 horas é especialmente útil para o diagnóstico
naqueles pacientes que apresentam valores limítrofes dos
intervalos QT. Outro achado não raro nessa população é a
presença de bradiarritmia,
como as paradas sinusais, bradicardia sinusal,
chegando-se até ao bloqueio AV total. Na avaliação da
resposta terapêutica frente
aos beta-bloqueadores (propranolol) um efeito favorável
demonstra uma redução e estabilidade nos valores dos
intervalos QT, menor
mutabilidade morfológica da onda de repolarização
ventricular bem como redução significativa dos padrões de
alternância da onda T, quando presentes. Esses
achados são realmente úteis na avaliação prognóstica. A
taquiarritmias observada nesta síndrome é do tipo polimórfica,
especificamente o torsades
de pointes. Observa-se nesta arritmia uma progressiva e
intermitente rotação dos complexos QRS sobre a linha de
base dando um aspecto muito característico a mesma. Não é
raro que este tipo de arritmia venha precedido de episódios
de alternância elétrica da onda T como mostrado na figura
D.
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| Em
D (masculino, 5 anos) um exemplo da síndrome do QT
longo com um episódio de alternância de polaridade
da onda T.
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REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS RECOMENDADAS
1.
Deal
JB, Wolff GS, Gelband H: Editores: Current Concepts in
Diagnosis and Management of Arrhythmias in Infants and
Children. Futura, Armonk, NY 1998.
2.
Saul
PJ, Walsh EP, Triedman JK: Mechanisms and therapy of complex
arrhythmias in pediatric patients. J Cardiovasc
Electrophysiol 1995;6:1129-1148.
3.
Perry JC: Ventricular Tachycardia in neonates. PACE
1997;20:2061-2064.
4.
Soyeur
DJ: Atrial flutter in the human fetus: diagnosis,
hemodynamic consequences and therapy. J
Cardiovasc Electrophysiol 1996;7:989-998.
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