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Compreendendo melhor as medidas de análise da variabilidade da freqüência cardíaca

Dr. Anis Rassi Jr.

Diretor Científico do Anis Rassi Hospital - Goiânia (GO)

Research Fellow do St. George's Hospital - Londres (UK)

O coração não é um metrônomo e os batimentos cardíacos não possuem a regularidade de um relógio. Assim, alterações periódicas e não periódicas da freqüência cardíaca (FC), definida como variabilidade da freqüência cardíaca (VFC), são normais e esperadas em indivíduos saudáveis.

As alterações ocorrem secundariamente à respiração, estresse físico e mental, exercício, alterações hemodinâmicas e metabólicas, etc. e são moduladas, principalmente, pelo sistema nervoso autônomo, com o parassimpático diminuindo a FC e aumentando a VFC e o simpático aumentando a FC e diminuindo a VFC. A VFC pode ser determinada durante registros eletrocardiográficos de curta duração e, nestes casos, geralmente em associação com testes provocativos (manobras respiratórias, testes posturais, exercício isométrico e dinâmico, estimulação carotídea, provas farmacológicas, etc.) ou, mais freqüentemente, durante monitorização eletrocardiográfica ambulatorial (Holter de 24 horas).

 

Análise da VFC

Várias medidas de análise, agrupadas em métodos lineares e métodos não lineares, podem ser utilizadas para avaliação da VFC (Figura abaixo). Os métodos não lineares baseiam-se na teoria do caos (fenômenos altamente irregulares, mas não ao acaso) e como são bastante complexos e encontram-se ainda em investigação, não serão aqui abordados. Quanto aos métodos lineares, existem basicamente dois tipos de análise da VFC: análise no domínio do tempo e análise no domínio da freqüência.

Métodos de avaliação da Variabilidade da Freqüência Cardíaca

1. Métodos lineares:

a) Domínio do Tempo

    a1) Análise de índices estatísticos

Baseados em intervalos RR, individualmente

          - SDNN

          - SDANN

          - SDNN index

Baseados em intervalos RR adjacentes

          - pNN50

          - rMSSD

    a2) Análise de índices geométricos

          - Índice triangular

          - Plotagem de Lorenz

    a3) Outros

          - Índices de turbulência

b) Domínio da Freqüência

    b1) Transformação de Fourier

    b2) Autoregressão

2. Métodos não lineares:

           - Dimensão fractal

           - Entropia

           - Expoentes de Lyapunov

Para a análise da VFC no domínio do tempo, assim denominada por expressar os resultados em unidade de tempo (milisegundos), mede-se cada intervalo RR normal (batimentos sinusais) durante determinado intervalo de tempo (habitualmente 24 horas) e, a partir daí, com base em métodos estatísticos ou geométricos, calcula-se os índices tradutores de flutuações na duração dos ciclos cardíacos (p. ex., média, desvio-padrão e índices derivados do histograma ou do mapa de coordenadas cartesianas dos intervalos RR). Existem basicamente dois métodos lineares de análise da variabilidade da freqüência cardíaca (VFC): análise no domínio do tempo . análise no domínio da freqüência.

Análise no domínio do tempo: índices estatísticos

Os índices de VFC calculados por meio de métodos estatísticos podem ser divididos em duas categorias: índices baseados na medida dos intervalos RR individualmente (SDNN, SDANN e SDNN index) e índices baseados na comparação entre dois intervalos RR adjacentes (pNN50 e rMSSD). Como a estimulação parassimpática resulta numa resposta rápida e de curta duração, fazendo-se notar já no primeiro ou segundo batimentos subsequentes, índices baseados na comparação entre a duração de dois ciclos adjacentes, como pNN50 (percentagem de intervalos RR adjacentes com diferença de duração superior a 50 milisegundos) e rMSSD (raiz quadrada da média do quadrado das diferenças entre intervalos RR normais adjacentes, expressa em milisegundos, ou seja, o desvio-padrão das diferenças entre intervalos RR normais adjacentes) refletem predominantemente o tônus vagal.

 

A estimulação simpática, por sua vez, tarda alguns segundos para se manifestar. Após período latente de cerca 5 segundos, a freqüência cardíaca vai aumentando gradativamente até atingir um estado estável após 20 a 30 segundos.

 

Desta forma, índices baseados na medida dos intervalos RR individualmente, como SDNN (desvio-padrão da média de todos os intervalos RR normais, expresso em milisegundos), SDANN (desvio-padrão das médias dos intervalos RR normais a cada 5 minutos, expresso em milisegundos) e SDNN index (média dos desvios-padrão dos intervalos RR normais a cada 5 minutos, expressa em milisegundos) representam a variabilidade global e refletem a atividade de ambos, parassimpático e simpático.

Abaixo exemplificamos, de maneira simplificada, como calcular os índices de VFC no domínio do tempo.

SDNN = desvio-padrão da média de todos os intervalos RR normais, em gravação de 24 horas, expresso em ms. Neste exemplo simbólico e abreviado, a média equivale a 846 ms e o desvio-padrão (ou SDNN) a 107 ms. Em termos simples, desvio-padrão é um modo de representar a dispersão dos valores ao redor da média. Para distribuições Gaussianas, permite inferir que aproximadamente 68% dos valores situam-se entre menos um e mais um desvios-padrão (entre 739 e 953 ms, no caso acima), 95% entre dois desvios-padrão e 99% entre três desvios-padrão.

SDANN = desvio-padrão das médias dos intervalos RR normais a cada 5 minutos, em gravação de 24 horas, expresso em ms. Neste exemplo, a média dos 6 segmentos de 5 minutos cada equivale a 846 ms e o desvio-padrão destas médias (ou SDANN) a 103 ms. Por se tratar de desvio-padrão de um valor médio obtido a partir de outras médias, seu valor é sempre inferior ao do SDNN em períodos longos de monitorização.

SDNN index = média dos desvios-padrão dos intervalos RR normais a cada 5 minutos, expresso em ms. Neste exemplo equivale a 47 ms. Seu valor geralmente é inferior ao do SDNN e SDANN.

pNN50 = percentagem de intervalos RR adjacentes com diferença de duração maior que 50 ms. Neste exemplo equivale a 30%, ou seja, dos 10 intervalos RR adjacentes, apenas três (o 2º, o 8º e o 10º) apresentam diferença de duração superior a 50 ms.

rMSSD = raiz quadrada da média do quadrado das diferenças entre intervalos RR normais adjacentes, expressa em ms. Neste exemplo simplificado é calculado por meio de fórmula:

A análise da variabilidade da frequência cardíaca (VFC) no domínio do tempo pode também ser feita por meio de índices geométricos.
A maior limitação para o emprego de métodos estatísticos (SDNN, SDANN, rMSSD etc.) na análise da VFC diz respeito à necessidade de obtenção de registros eletrocardiográficos de boa qualidade, com vistas à identificação automatizada correta dos intervalos RR normais. 
Como muitas vezes tais registros dificilmente são obtidos, particularmente durante períodos prolongados de monitorização eletrocardiográfica, os sistemas comerciais de Holter dispõem de mecanismos de filtragem que excluem os intervalos RR normais com duração maior ou menor que 20-30%, em relação aos intervalos vizinhos, diminuindo assim a possibilidade de inclusão de artefatos ou de intervalos erroneamente classificados na análise estatística. 

Este problema pode também ser contornado por meio do emprego de métodos geométricos que utilizam a sequência de intervalos RR normais para construir uma forma geométrica, habitualmente através do histograma de densidade ou de um mapa de coordenadas cartesianas, deles extraindo os índices de análise da VFC. 

O índice geométrico mais utilizado é o índice triangular, calculado a partir da construção do histograma dos intervalos RR normais, o qual mostra no eixo horizontal todos os possíveis valores dos intervalos RR obtidos geralmente com uma frequência de amostragem de 128 Hz - equivalente a uma diferença de aproximadamente 8 ms (1/128) entre os valores medidos – e, no eixo vertical, a frequência com que cada um deles ocorreu. Considerando-se que a união dos pontos das colunas do histograma forma uma figura semelhante a um triângulo e que a largura da base deste triângulo expressa a variabilidade dos intervalos RR, um índice de VFC pode ser facilmente calculado a partir de regras geométricas simples, levando-se em conta a área e a altura do triângulo. A altura h corresponde ao número de intervalos RR com frequência modal, ou seja, aquele que apareceu mais vezes, ao passo que a área A corresponde ao número total de intervalos RR utilizados para construí-la. Assim, o índice triangular da VFC (correspondente à base do triângulo) é obtido dividindo-se o número total de intervalos RR pela frequência modal dos mesmos (A/h). 

Conforme pode ser observado na figura abaixo, os intervalos RR medidos de maneira incorreta, sejam aqueles muito mais curtos que os intervalos normais (geralmente correspondentes a artefatos ou a ondas T ou P apiculadas, computados como QRS normais), sejam aqueles muito mais longos que os intervalos corretamente medidos (geralmente por falha da análise computadorizada em identificar um ou mais complexos QRS normais), que certamente alteram os cálculos dos índices estatísticos, não interferem com o cálculo do índice triangular. Apesar da sua utilidade, particularmente em relação a registros eletrocardiográficos imperfeitos e da sua validação como importante preditor de morte súbita após o infarto do miocárdio (valores inferiores a 20-15), o índice triangular não é muito utilizado, pois são poucos os sistemas de Holter que possuem o software para a sua análise.

Exemplo de histograma do intervalo RR obtido de gravação de Holter de 24 horas com análise automatizada imprópria. Além do pico principal, constituído por intervalos RR medidos corretamente, observa-se dois picos secundários, um deles com intervalos RR mais curtos (artefatos x), provavelmente devido a ondas T ou P apiculadas interpretadas como complexos QRS normais, e o outro, com intervalos RR cerca de 2x mais longos que os intervalos normais (artefatos y), provavelmente devido à falha da análise automatizada em identificar alguns batimentos normais. A inclusão destes intervalos na análise estatística exagera a VFC (SDNN muito elevado). Entretanto, com o índice triangular, calculado a partir de regras geométricas simples, dividindo-se o nº total de intervalos RR, ou seja, 100.000 neste exemplo hipotético, e que corresponde à area do triângulo, pelo nº de intervalos RR com frequência modal, ou seja 4.000, e que corresponde à altura do triângulo, tal problema é contornado pois os batimentos erroneamente classificados não interferem com o cálculo do mesmo. Observe que o numeral 2 que aparece na fórmula para o cálculo da base do triângulo pode ser excluído do cálculo do índice triangular, pois se trata de uma constante.

A VFC pode também ser avaliada por meio da plotagem de Lorenz (plotagem de Poincaré ou mapa de retorno), que nada mais é do que um mapa de pontos em coordenadas cartesianas, onde cada ponto é representado, no eixo horizontal X (abcissa), pelo intervalo RR normal precedente e, no eixo vertical Y (ordenada), pelo intervalo RR seguinte (Fig. 1). A plotagem de um número suficiente de intervalos RR em função do intervalo RR precedente, durante períodos longos de monitorização eletrocardiográfica, possibilita a criação de alguns padrões característicos, que são facilmente reconhecidos e que traduzem o comportamento da VFC (Fig. 2).

Variações fisiológicas do intervalo RR produzem uma plotagem de Lorenz ampla (largura e comprimento), em forma de cometa, ao passo que traçados com redução acentuada da VFC geram padrões mais compactos, semelhantes a um torpedo quanto à sua forma. Além disso, intervalos RR medidos de maneira incorreta podem ser facilmente identificados, pois localizam-se bem distantes do envelope central. 

Como o comprimento é influenciado pelos valores extremos dos intervalos RR nas 24 horas, existe boa correlação do mesmo com os índices que traduzem a variabilidade global, simpática e parassimpática (SDNN e SDANN). Já a largura da plotagem, por depender fundamentalmente das diferenças entre os intervalos vizinhos, apresenta melhor correlação com os índices tradutores de variabilidade de curta duração, predominantemente parassimpática, ou seja, o rMSSD e o pNN50. Apesar destas características, a plotagem de Lorenz não é muito utilizada, pois são poucos os  sistemas comerciais de Holter que dispõem da mesma. Outra limitação do método é que ele não traz nenhuma informação sobre a densidade da plotagem, o que significa dizer que o número de pares de intervalos RR correspondentes ao mesmo ponto no mapa de coordenadas cartesianas não é conhecido. Desta maneira, é possível que traçados com diferenças significativas na VFC apresentem padrões semelhantes de plotagem de Lorenz.

Turbulência da Freqüência Cardíaca: novo método de análise da variabilidade da freqüência cardíaca

Recentemente, a análise de flutuações na duração dos intervalos RR normais após uma extra-sístole ventricular (EV), baseado na expressão simples da arritmia sinusal ventriculofásica, denominada pelo grupo do Dr. Schmidt de Turbulência da Freqüência Cardíaca (TBC), mostrou-se útil na estratificação de risco de pacientes após o infarto agudo do miocárdio.

 

A TFC pode ser definida como a resposta fisiológica bifásica do nó sinusal após determinada EV isolada. Consiste de aceleração inicial da FC (diminuição nos intervalos RR) observada geralmente nos dois primeiros batimentos após a EV, seguida de desaceleração (aumento nos intervalos RR), que atinge o seu valor máximo por volta do 10º ciclo sinusal pós-EV. Os mecanismos responsáveis pela TFCainda não são bem conhecidos, mas acredita-se, que estejam relacionados ao baroreflexo autonômico. A TFC pode ser quantificada por meio de dois parâmetros numéricos, o início da turbulência (turbulence onset ou TO) e a inclinação da turbulência (turbulence slope ou TS), o primeiro analisando a fase de aceleração e o segundo a fase de desaceleração da FC.

 

Início da turbulência (TO) = diferença, em valores percentuais, entre a FC imediatamente após (média do dois primeiros batimentos, expressa em ms) e a FC imediatamente antes da EV (média dos dois últimos batimentos). Calculado por meio da seguinte fórmula:

sendo que RR2 e RR1 são os dois primeiros intervalos RR normais após a EV e RR-2 e RR-1, os dois primeiros intervalos RR normais que precedem a mesma. Vale ressaltar que valores negativos de TO indicam aceleração inicial do ritmo sinusal, enquanto valores positivos indicam desaceleração.

Inclinação da turbulência (TS): corresponde à inclinação mais íngreme das linhas de regressão linear para cada conjunto de cinco intervalos RR sucessivos dentre os 20 primeiros batimentos sinusais após a EV. O seu valor é expresso em ms por intervalo RR. Vale ressaltar que as variações na FC pós-EV são súbitas e imperceptíveis à nossa visão, e que o cálculo de TO e TS requer análise computadorizada e leva em conta os valores médios de várias determinações individuais.

Figura 1A: Flutuação da FC após EV em paciente de baixo risco pós-IAM:
TFC elevada (TO negativo e TS > 2,5 ms/RR)
TO = [(860 + 870) – (910 + 905)] / (910 + 905) x 100 = -4,7%
TS = calculado por meio de análise de regressão linear
A Figura 1A mostra o padrão normal de TFC , caracterizado por aceleração inicial da FC (média dos dois intervalos RR normais pós-EV menor do que a média pré-EV), seguido de desaceleração (aumento progressivo os intervalos RR), com retorno ao estado basal após 15 a 20 batimentos. Esse padrão de resposta foi descrito por Schmidt e cols. como indicador de bom prognóstico pós-IAM. Ao contrário, a Figura 1B mostra um padrão diferente de resposta, com ausência de aceleração inicial e desaceleração pouco evidente. Valores de TO inferiores a 0% e de TS inferiores a 2,5 ms/intervalo RR foram capazes de identificar pacientes de alto risco pós-IAM, de maneira independente e, inclusive, com maior valor preditivo em relação a outros marcadores tradicionais.
Flutuação da FC após EV em paciente de alto risco pós-IAM:
TFC diminuída (TO positivo e TS < 2,5 ms/RR)
TO = [(930 + 955) – (935 + 925)] / (935 + 925) x 100 = 1,34%
TS = calculado por meio de análise de regressão linear 
Análise no Domínio da Freqüência
A variabilidade da freqüência cardíaca (VFC) também pode ser avaliada por meio de medidas no domínio da freqüência. Pelo fato da freqüência cardíaca apresentar flutuações, que em grande parte são periódicas, o registro contínuo do eletrocardiograma durante períodos curtos ou prolongados (24h) e a subseqüente representação gráfica dos intervalos RR normais em relação ao tempo (tacograma), dá origem a um fenômeno ondulatório complexo, que pode ser decomposto em ondas mais simples, por meio de algoritmos matemáticos, como a transformação rápida de Fourier ou o modelo auto-regressivo (figura 1).

Este processo, denominado análise espectral, permite decompor o sinal eletrocardiográfico oriundo da série temporal (tacograma) em seus diferentes componentes de freqüência, ou seja, nas chamadas bandas de freqüências. Vale ressaltar que freqüência refere-se ao número de vezes que um determinado fenômeno (p. ex. onda sonora, corrente elétrica ou qualquer forma de onda cíclica) ocorre em relação ao tempo. Habitualmente, a unidade de freqüência utilizada é o Hertz (Hz), que equivale a um ciclo por segundo.

A figura 2 representa uma análise hipotética no domínio da freqüência. Neste exemplo extremamente simplificado, a variabilidade total resulta tão somente de três fenômenos ondulatórios distintos:

um componente de alta freqüência, equivalente a 0,25 Hz (15 ciclos/min = 15 ciclos/60seg = 0,25 ciclos/seg = 0,25 Hz), um componente de baixa freqüência, equivalente a 0,1 Hz (6 ciclos/min) e um componente de muito baixa freqüência, de 0,016 Hz (1 ciclo/min). A combinação destas três ondas senoidais gera um sinal ondulatório complexo que pode muito bem ser comparado ao sinal que se obtém quando a freqüência cardíaca é expressa em um gráfico temporal (tacograma), respeitando-se, obviamente, a simplicidade do exemplo em questão (figura 2b).

Finalmente, a figura 2c mostra o resultado da análise espectral realizada no sinal representado em 2b, ou seja, como uma eventual série temporal determinada por ciclos cardíacos sucessivos pode ser decomposta em seus componentes periódicos e como cada uma das freqüências que compõem a análise espectral pode ser quantificada em sua amplitude (magnitude). Ademais, o cálculo da área compreendida por cada faixa de freqüência (que é proporcional ao quadrado da amplitude do sinal original e, portanto, neste caso, expresso em ms2), permite separar a quantidade de variância (potência) atribuída a cada freqüência. 

Desta maneira, a participação individual de cada uma das divisões do sistema nervoso autônomo (simpático e parassimpático) em diferentes situações fisiológicas e patológicas, assim como sua relação com os principais sistemas que interferem com a VFC (sistemas respiratório, vasomotor, termoregulador, da renina-angiotensina e sistema nervoso central), podem ser melhor estudadas. Esta é, por sinal, a principal diferença da análise espectral em relação à análise no domínio do tempo, com esta última não conseguindo, de modo geral, diferenciar quais os ritmos ou oscilações dominantes que conferem à freqüência cardíaca sua variabilidade.

Componentes espectrais do tacograma (bandas de freqüências): Figura 3

Em registros longos (24 horas), a potência total se decompõe em quatro bandas distintas: 1) banda de alta freqüência (HF), oscilando a uma freqüência de 0,15 a 0,40 Hz, ou seja, 9-24 ciclos/min e correspondendo às variações da freqüência cardíaca relacionadas com o ciclo respiratório (arritmia sinusal respiratória). São tipicamente moduladas pelo parassimpático; 2) banda de baixa freqüência ou LF (0,04 a 0,15 Hz ou 2,4 a 9 ciclos/min), modulada tanto pelo simpático quanto pelo parassimpático, com predominância simpática em algumas situações específicas, e que reflete as oscilações do sistema baroreceptor; 3) banda de muito baixa freqüência ou VLF (0,003 a 0,04 Hz ou 0,2 a 2,4 ciclos/min), dependente dos mecanismos termoreguladores e do sistema renina-angiotensina, cuja regulação também é efetuada pelo simpático e parassimpático, e 4) banda de ultra baixa freqüência ou ULF (< 0,003 Hz ou < 0,2 ciclos/min), que corresponde à maior parte da variância total, mas cujo significado fisiológico ainda não está bem definido. Esta banda sofre a influência do parassimpático e simpático e, obviamente, não está presente nos registros de curta duração. Parece estar relacionada com o sistema neuroendócrino e ritmos circadianos, dentre outros.

A medida dos componentes espectrais habitualmente é feita em valores absolutos de potência (ms2). Entretanto, os valores de HF e LF podem também ser expressos em unidades normalizadas (nu), representando o valor de cada um destes componentes em relação à potência total (TP) menos o componente de VLF. São calculados por meio das seguintes fórmulas: HF(nu) = HF/(TP – VLF) x100 e LF(nu) = LF/(TP – VLF) x100. Com isto, os efeitos das alterações na faixa de VLF sobre as outras duas de freqüências mais rápidas (LF e HF) são minimizados. Outra medida muito utilizada é a relação LF/HF, a qual pode fornecer informações úteis sobre balanço entre os sistemas simpático e parassimpático. Vale ressaltar ainda que, em virtude dos valores absolutos em ms2 apresentarem grande variabilidade e assimetria de distribuição, a sua transformação logarítmica geralmente se faz necessária.

Correlação entre índices no domínio do tempo e freqüência:

Como as medidas de VFC nos dois domínios são expressões do mesmo fenômeno, algumas correlações entre índices do domínio do tempo e de freqüência têm sido demonstradas. Assim, o SDNN e o índice triangular, ao avaliarem a variabilidade total, apresentam boa correlação com a potência total da análise espectral. Por outro lado, o pNN50 e o rMSSD, por considerarem diferenças entre intervalos RR adjacentes, quantificando variações rápidas da freqüência cardíaca, correlacionam-se com o componente de alta freqüência do espectro de potência. SDANN com ULF e SDNN index com ambos VLF e LF são outros exemplos de correlações significativas (r > 0,90).

Variabilidade da freqüência cardíaca após infarto do miocárdico e na insuficiência cardíaca:

A análise espectral da VFC após infarto do miocárdio, quando medida em unidades absolutas (ms2), revela diminuição da potência total e de todos seus componentes individuais. Entretanto, quando HF e LF são calculados em unidades normalizadas, observa-se aumento de LF e diminuição de HF, denotando predomínio simpático e diminuição do tônus vagal, alterações estas que predispõem à instabilidade elétrica e morte súbita. Além disto, em gravações de 24 horas, os componentes ULF e VLF têm apresentado associação mais significativa com morte arrítmica e morte total do que os componentes HF e LF. Já nos pacientes com disfunção ventricular grave pós-IAM ocorre diminuição e não aumento do componente de baixa freqüência (LF), provavelmente por saturação dos impulsos simpáticos. Vale ressaltar que a análise da densidade do espectro de potência mede as flutuações no tônus autonômico (maior diferença entre ativação e inibição fisiológica) e não o balanço autonômico médio. Assim, tanto a inibição autonômica quanto a estimulação intensa e contínua são capazes de alterar a variabilidade da freqüência cardíaca.

Em pacientes com insuficiência cardíaca, também ocorre diminuição da potência total e dos componentes LF e HF, com aumento inicial da relação LF/HF. Entretanto, em etapas mais avançadas, à semelhança do que ocorre no pós-IAM com disfunção ventricular, observa-se diminuição da relação LF/HF, pois o aumento acentuado do tônus simpático não é capaz de gerar oscilações periódicas, “saturando” o sistema oscilador.

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