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Ectopias Ventriculares ou por Condução Supra Ventricular Aberrante? (segunda parte)

Dr. Ivan G. Maia

Hospital Pró-cardíaco - RJ

 

Dados que sugerem uma despolarização ectópica de origem ventricular:

1. Complexos QRS com duração superior a 0,14 s.

Dificilmente uma ectopia SV aberrante produziria esse grau de alargamento do complexo QRS.

2. Presença de "batimentos de fusão".

Em condições especiais os ventrículos poderão ser ativados por duas frentes de onda excitatórias (SV e V). Assim, o complexo QRS gerado é precedido por uma onda P e apresenta um padrão intermediário entre o verdadeiro SV e o puro ventricular. Esse padrão depende da quantidade de massa ventricular ativada pelo foco ventricular e pelo estímulo sinusal. Quanto maior for a participação do foco ventricular maior será a duração do complexo QRS.

3. Presença de dissociação AV.

Uma ectopia ventricular precoce tende a produzir uma momentânea impossibilidade do ritmo SV seguir seus caminhos naturais, pois os ventrículos encontram-se refratários. Assim, este sinal é definitivo de uma origem ventricular do complexo ectópico. A onda P poderá ser identificada na parte inicial, dentro ou logo após o QRS anormal. Ela poderá preceder o complexo QRS mas o intervalo PR terá valores muito curtos (< 0,12 s), indicando dissociação AV.

4. Presença de interpolação.

Um complexo QRS alargado, ocorrendo entre dois complexos sinusais, sem interferir com o ciclo básico, indica tratar-se de um evento ventricular. Observa-se um P-QRS – Ectopia – P-QRS em que os intervalos P-P tem valores iguais ou próximos aos do ciclo básico.

Além desses sinais, os dados morfológicos podem ajudar no diagnóstico diferencial. A presença de um padrão QS ou RS em V6 ou R pura ou R-R’ em V1 com R > R’ sugerem um origem ventricular do complexo.

O grupo de arritmias da Holanda utiliza um excelente critério para o diagnóstico diferencial. Em resumo, dois dados são significativos: frente a uma TV em que não existem complexos RS nas precordias (somente R ou QS) o diagnóstico é de uma origem ventricular dos complexos (a análise deverá usar todas as derivações precordiais). Caso exista um RS, devemos medir o tempo de ativação entre o início do complexo QRS e o ponto mais negativo da onda S. Quando maior do que 100 ms o diagnóstico de TV é mandatório.

Os mesmos problemas para diferenciação da aberrância com os batimentos ventriculares verdadeiros ocorrem com o Holter. Como os registros englobam apenas três canais, as dificuldades deveriam ser maiores. No entranto, o Holter tem uma enorme vantagem sobre o ECG convencional. Trata-se de registros longos e como tal determinados eventos poderão ser comparados em momentos distintos. Isso facilita muito o diagnóstico. Por exemplo, uma dissociação AV poderá não ser observada em um determinado complexo QRS e estar presente em outro semelhante. O mesmo poderá ser dito quanto a uma fusão. Assim, a comparação nas 24 horas dos diversos eventos anormais é um formidável elemento para o diagnóstico diferencial.

Seguem alguns exemplos dos dados ou padrões aqui discutidos. As derivações dos registros são as clássicas do Holter (MV1-2 – MV5 e com um terceiro canal semelhante a D1).

Na figura 1 temos exemplos de fusões (assinalados por pontos negros). Os complexos QRS têm uma morfologia intermediária entre o sinusal e o ectópico.

Figura 1 - Os batimentos de fusão estão assinalados por pontos pretos

Figura 2 - 13:20 hs TV com complexos QRS ventriculares idênticos aos das 

17:55 hs, onde também se observam batimentos de fusão ventriculares quando as extrassístoles atriais são conduzidas.(ponto preto).

Na figura 2, um exemplo da utilidade do Holter para o diagnóstico diferencial. O paciente desenvolveu vários episódios de FA paroxística. Em um deles apresentou quatro batimentos ectópicos sucessivos com QRS alargado. TV ou SV? A favor de SV nota-se que o evento foi precedido por um ciclo longo (fenômeno de Ashmann) e que o último complexo QRS é menos aberrante (graus variáveis de aberrância). No traçado inferior, algumas horas após, em ritmo sinusal, ocorre uma ectopia com morfologia idêntica as observadas durante FA. Estabeleceu assim o diagnóstico de um evento ventricular. Caso os registros fossem em um ECG isolado, a dúvida continuaria.

O traçado das 17:55 hs tem ainda outra peculiaridade para fazer o diagnóstico diferencial. Os dois QRS aberrantes estão precedidos de extrassístoles atriais (setas). Após a primeira, (280 ms), temos uma EV típica. Após a segunda P ectópica, (320 ms) temos um batimento de fusão. O estímulo atrial consegue entrar parcialmente nos ventrículos devido a que o PR é 40 ms maior.

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