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Compreendendo melhor as medidas de análise da Variabilidade da Freqüência Cardíaca 

(última parte)

Dr. Anis Rassi Jr.

Diretor Científico do Anis Rassi Hospital - Goiânia (GO)

Research Fellow do St. George's Hospital - Londres (UK)

Componentes espectrais do tacograma (bandas de freqüências):

Em registros longos (24 horas), a potência total se decompõe em quatro bandas distintas:

1) banda de alta freqüência (HF), oscilando a uma freqüência de 0,15 a 0,40 Hz, ou seja, 9-24 ciclos/min e correspondendo às variações da freqüência cardíaca relacionadas com o ciclo respiratório (arritmia sinusal respiratória). São tipicamente moduladas pelo parassimpático;

2) banda de baixa freqüência ou LF (0,04 a 0,15 Hz ou 2,4 a 9 ciclos/min), modulada tanto pelo simpático quanto pelo parassimpático, com predominância simpática em algumas situações específicas, e que reflete as oscilações do sistema baroreceptor;

3) banda de muito baixa freqüência ou VLF (0,003 a 0,04 Hz ou 0,2 a 2,4 ciclos/min), dependente dos mecanismos termoreguladores e do sistema renina-angiotensina, cuja regulação também é efetuada pelo simpático e parassimpático, e

4) banda de ultra baixa freqüência ou ULF (< 0,003 Hz ou < 0,2 ciclos/min), que corresponde à maior parte da variância total, mas cujo significado fisiológico ainda não está bem definido. Esta banda sofre a influência do parassimpático e simpático e, obviamente, não está presente nos registros de curta duração. Parece estar relacionada com o sistema neuroendócrino e ritmos circadianos, dentre outros.

A medida dos componentes espectrais habitualmente é feita em valores absolutos de potência (ms2). Entretanto, os valores de HF e LF podem também ser expressos em unidades normalizadas (nu), representando o valor de cada um destes componentes em relação à potência total (TP) menos o componente de VLF.

São calculados por meio das seguintes fórmulas:

HF(nu) = HF/(TP – VLF) x100 e LF(nu) = LF/(TP – VLF) x100. Com isto, os efeitos das alterações na faixa de VLF sobre as outras duas de freqüências mais rápidas (LF e HF) são minimizados. Outra medida muito utilizada é a relação LF/HF, a qual pode fornecer informações úteis sobre balanço entre os sistemas simpático e parassimpático. Vale ressaltar ainda que, em virtude dos valores absolutos em ms2 apresentarem grande variabilidade e assimetria de distribuição, a sua transformação logarítmica geralmente se faz necessária.

Correlação entre índices no domínio do tempo e freqüência:

Como as medidas de VFC nos dois domínios são expressões do mesmo fenômeno, algumas correlações entre índices do domínio do tempo e de freqüência têm sido demonstradas. Assim, o SDNN e o índice triangular, ao avaliarem a variabilidade total, apresentam boa correlação com a potência total da análise espectral. Por outro lado, o pNN50 e o rMSSD, por considerarem diferenças entre intervalos RR adjacentes, quantificando variações rápidas da freqüência cardíaca, correlacionam-se com o componente de alta freqüência do espectro de potência. SDANN com ULF e SDNN index com ambos VLF e LF são outros exemplos de correlações significativas (r > 0,90).

Variabilidade da freqüência cardíaca após infarto do miocárdico e na insuficiência cardíaca:

A análise espectral da VFC após infarto do miocárdio, quando medida em unidades absolutas (ms2), revela diminuição da potência total e de todos seus componentes individuais. Entretanto, quando HF e LF são calculados em unidades normalizadas, observa-se aumento de LF e diminuição de HF, denotando predomínio simpático e diminuição do tônus vagal, alterações estas que predispõem à instabilidade elétrica e morte súbita. Além disto, em gravações de 24 horas, os componentes ULF e VLF têm apresentado associação mais significativa com morte arrítmica e morte total do que os componentes HF e LF. Já nos pacientes com disfunção ventricular grave pós-IAM ocorre diminuição e não aumento do componente de baixa freqüência (LF), provavelmente por saturação dos impulsos simpáticos. Vale ressaltar que a análise da densidade do espectro de potência mede as flutuações no tônus autonômico (maior diferença entre ativação e inibição fisiológica) e não o balanço autonômico médio. Assim, tanto a inibição autonômica quanto a estimulação intensa e contínua são capazes de alterar a variabilidade da freqüência cardíaca.

Em pacientes com insuficiência cardíaca, também ocorre diminuição da potência total e dos componentes LF e HF, com aumento inicial da relação LF/HF. Entretanto, em etapas mais avançadas, à semelhança do que ocorre no pós-IAM com disfunção ventricular, observa-se diminuição da relação LF/HF, pois o aumento acentuado do tônus simpático não é capaz de gerar oscilações periódicas, "saturando" o sistema oscilador.

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