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Um Caso de Difícil Diagnóstico

Dr. Ivan G. Maia

Pró-Ritmo

Empatia, indiferença, antipatia, com gradações de um extremo ao outro. Sentimentos comandados pelos olhos, e talvez pelos feromônios, aqueles hormônios que exalam. Um emite, o outro recebe, devolve os sinais. Na troca, cada um recebe da sua forma... você é um cara legal... você é um chato de galocha... Por mais profissional que você... não tem como fugir. Aquele doente que chega, sorriso aberto, descontraído, alegria pelos poros, que prazer recebê-lo. Outros... tanto faz, outros ainda, quando telefonam desmarcando a consulta, sem você perceber, aquela relaxada, nada melhor. Pode fazer um balanço, as relações médico-paciente não transcendem as relações humanas. Esse é um dos motivos da dita infidelidade dos pacientes. Competência... muito pouco, mesmo porque doente não tem como julgar quem é autoridade. Todo esse preâmbulo para contar uma história de difícil diagnóstico. Não sou dado a mentiras, não tenho nenhuma explicação para o caso que segue. Minha mulher é testemunha viva dos fatos. Mme M era uma daquelas pacientes do grupo "prazer em receber", exalava sorriso. Uma coroa delicada, franca, beirando 60 anos, ainda com muito charme. Comparecia regularmente ao consultório, tinha uma leve hipertensão. Nossas relações eram de sólida amizade, acredito que de forma recíproca. O pagamento da consulta era sempre complementado com um singelo presentinho. Um belo dia... aquele maldito adenocarcinoma de intestino. Seis meses de vida, com muito sofrimento. Mesmo não tendo nada com o assunto, visitava a paciente com regularidade. Conversar, dar força, "controlar" sua pressão. E Mme M morreu...

Tenho uma regra básica, dificilmente vou a enterros. Não entro em capela funerária. A sensação que tenho é a de que estão me chamando. E eu, bancando o mal educado, não respondo. No caso de Mme M... deveria ter ido.

Passados dez dias do sepultamento, estávamos em casa, minha mulher atende a uma ligação (ainda não havia celulares):

— Aqui é do Mercado das Flores, é da casa do Dr. Ivan Maia?

— É...

— Tenho uma encomenda para entrega, uma corbelha com quatro dúzias de rosas brancas. Acontece que não tenho esse total, vou ter que misturá-las... tem algum problema?

Mão no bocal...

— É do Mercado das Flores, alguém enviando rosas para você...

— De quem é a encomenda?

— O Sr. pode dizer o nome da pessoa...

Mão no bocal

— A pessoa não deixou nome, nem endereço...

— Ora, pergunta como era a pessoa...?

— ... uma senhora loura, chegando aos 60, nem alta nem baixa, elegante...

— Pergunta se havia alguma marca no rosto...

— Foi o senhor que a atendeu? Tinha alguma marca no rosto?... — Sim, uma pinta bem escura na bochecha...

— Manãzinha, desliga esse troço. Pela descrição é Mme M. Só que ela morreu há dez dias...

— Senhooor... nós vamos viajaaar (era verdade)... Não tem ninguém para receber a encomenda... as flores vão murchaaar... Dá o endereço do seu boxe, na volta nos passamos aí para escolher outras...

Magdalena não conseguiu colocar o fone no gancho.

— Você está de brincadeira...

— Não, é verdade...

O caso foi encerrado. Até hoje, passados 20 anos, continuo esperando que uma viva alma, de carne e osso, cruze comigo e pergunte:

— Você gostou das rosas...

O termo "O Nome da Rosa" (livro genial de Umberto Eco) era usado na Idade Média para expressar o infinito poder das palavras. Quem sabe também das almas...

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