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Imprevisto

Dr. Ivan G. Maia

Pró-Ritmo

O que segue não é ficção, pura verdade. Grande figura, 76 anos bem vividos, corpo e alma. Musculoso, troncudo, média estatura, a cara não negava a raça, salaam, sahib. Era uma das mais populares figuras do Posto 6, petequeiro famoso, o homem que armava e desarmava a rede, melhor, as redes, dupla nesse esporte. Amigo, cliente, vizinho, morava na Joaquim Nabuco, quarteirão da praia, sala e dois quartos, pra que mais, ele e a mulher. Além do cheiro da maresia, do barulho das ondas, outra vantagem: o filho ao lado. Cinqüenta e dois anos de casado, fora três de noivado. Conheceu a mulher naquela mesma praia, na rede de vôlei. Casaram, filhos, uma união pra lá de feliz. Ela já septuagenária, ainda enxuta.

Nas consultas, nada importante, uma leve hipertensão, poucas queixas, mais bate-papo. Um dia, senti que estava triste, macambúzio.

— O que houve, cara?

— Não estou dando mais no couro...

— Essa é boa! Você nunca deu...

— Não brinca, tô falando sério...

— Você não me falou...

— Pensei que fosse passageiro...

— Não esquenta, vou receitar um remédio, resolve. Programa, toma um comprimido, 40, 50 minutos depois...

— Tenho medo, vai mexer com a minha pressão, além disso é muito caro...

Foram seis meses de dúvidas, temores, eta decisão difícil! Como a situação não melhorou... Veio uns atrasados, plano Collor, Bresser, sei lá, tomou coragem, é hoje. Decidido, foi a Pacheco:

— O senhor tem viagra (quase sussurrando).

— VIAGRA!

Todo mundo ouviu, era o que não queria. Corou, se pudesse enfiava a cabeça debaixo do balcão. Deixou a farmácia correndo, caixinha no bolso, ansiedade.

— Mulher, é hoje... bota aquela camisola preta.

Cinqüenta minutos. Calculou o tempo da novela — O Clone —, acabava às dez e trinta. Jade continuava lutando pelo seu amor impossível. Vestiu o pijama, foi para o banheiro com um copo d’água, esperou. Antes, havia colocado o número do meu telefone na cabeceira. Com medo, pensativo, ingeriu o comprimido mágico. Cinqüenta eternos minutos. Examinava o corpo, nada. Às dez e quinze percebeu que o rosto esquentava, uma sensação nova, rubor facial. Olhou no espelho, os vasos pulsavam, as rugas estavam carmesim. Deitou ao lado da mulher, camisola preta, acabou o luto. Assustou-se, ouviu um ruído estranho, era a campainha. Sem se levantar da cama, gritou:

— Quem é?

— Vô, somos nós, viemos dormir com vocês.

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