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Reminiscências

Dr. Ivan G. Maia

Pró-Ritmo

Existia, nos hospitais da rede estadual do Rio de Janeiro, ou melhor dito, do Distrito Federal, a figura do auxiliar-acadêmico. Os alunos do 5º e 6º anos prestavam concurso e eram contratados até a conclusão do curso. Idos dos anos 50. Pagavam uma boa graninha, contando com esse dinheiro, casei e, por incrível que pareça, passados 50 anos, não repeti a dose.

Aprovado no exame, fui designado para o Hospital Rocha Faria, Campo Grande, zona rural. Plantões às segundas-feiras. Agradáveis dois anos de formação. Um bondoso e paciente chefe de equipe, dois ótimos cirurgiões, um obstetra, três clínicos, laboratório, medicação não faltava. Eram plantões dirigidos para o atendimento de urgências, com significativo número de chamados em residência. Esses atendimentos eram feitos pelos clínicos, acompanhados por um auxiliar-acadêmico. Na realidade, especialmente nas madrugadas, só o auxiliar sentava-se na ambulância. No caminho... muitas dúvidas, uma ponta de orgulho e a opção da reboqueterapia, resolver o caso no hospital.

Esse preâmbulo foi necessário para contar um pouco da história de um dos clínicos. Era um cara carrancudo, solitário, isolava-se durante as 24 horas.

Chegando aos 60 anos, católico fervoroso, usava vários crucifixos no peito. Em função das suas convicções religiosas, não fazia atendimentos obstétricos - não examinava lugares pecaminosos. Na hora da saída, recebíamos um papel com endereço e tipo de chamado. Dentro do esquema de molecagem vigente, cansamos de trocar o "trabalho de parto" ou "hemorragia" para "passando mal".

Por questões óbvias, fazia questão de atender os chamados sozinho, dispensava o acadêmico. Sabíamos das coisas por fofoca dos enfermeiros. Era, sem dúvida, um grande botânico. Nunca usou um medicamento da caixa de emergência, não sentia necessidade. Quando entrava nas casas, observava a flora em volta:

— Minha senhora (tinha uma voz soturna), vamos aproveitar o que já existe em casa. Apanhe umas folhas daquela roseira, vamos fazer um chazinho, tome-o a cada quatro horas... está resolvido o problema.

— Meu amigo, você dispõe de um fantástico remédio em casa. Mande colher umas folhas daquele jasmim-do-mato, faça uma boa quantidade de chá, tome o conteúdo de uma xícara de café a cada quatro horas. Está resolvido o problema...

Assim, o doutor conduzia os casos, pra nosso espanto, naturalmente. Um ano de farmacologia, fórmulas, nomes complicados... Pra quê? Por ignorância ou ceticismo, não acreditávamos naquele tipo de tratamento, aliás, até hoje. No entanto, a julgar pela ausência de novos chamados para o mesmo lugar, muitos pacientes melhoravam.

Um belo dia... o trágico-cômico interferiu...

— Doutor, é a sua vez. Trata-se de um velho passando mal.

Passado uma hora, ouvimos a sirene e a chegada da ambulância em velocidade. Ficamos assustados, vem aí aquela bomba. Dentro do veículo, o doutor, o enfermeiro, um pai aflito, um menino de uns 12 anos. O garoto sangrava pelo nariz, o braço nitidamente fraturado, gemia, chorava.

A resposta estava com o enfermeiro...

— Meu amigo, vamos respeitar a natureza, resolver o caso com simplicidade. Mande seu neto pegar umas folhas daquele mamoeiro, macere, faça um chá, água bem quente, tome a cada quatro horas...

Era um velho mamoeiro, seis metros de altura, não resistiu aos 30 quilos do menino.

Deus conserve esse doutor, morreu carregando grandes segredos.

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