TRC é um procedimento terapêutico invasivo que tem o
objetivo de corrigir disfunções eletromecânicas por meio de estimulação
cardíaca artificial (ECA), em pacientes com insuficiência cardíaca (IC)
avançada e refratária a tratamento medicamentoso otimizado. O
procedimento consiste no implante de um cabo-eletrodo na parede do VE,
adicional à técnica convencional utilizada para marcapasso
atrioventricular (AD+VD).
A introdução da TRC surgiu a partir da observação de que
a presença de bloqueio de ramo esquerdo (BRE) poderia proporcionar
dissincronismo intra e interventricular e consequentemente
comprometimento funcional do miocárdio. Nesse sentido, o doppler
tecidual (TDI) é considerado atualmente o método de imagem mais adequado
para documentar, não somente a presença do dissincronismo ventricular,
como também os locais de maior retardo contrátil.
A TRC é, portanto, a estimulação átrio-biventricular que
representa uma alternativa terapêutica aos pacientes com IC avançada.
Sua base fisiopatológica é o remodelamento reverso do VE e suas diretas
implicações como redução da insuficiência mitral, melhora do controle
autonômico cardiovascular e periférico assim como dos fatores
neuro-humorais.
A documentação da morfologia híbrida do QRS assim como a
redução de sua duração, ao ECG de 12 derivações, sugere a ocorrência
simultânea de duas frentes de despolarização ventricular, mas nem sempre
garante que esteja ocorrendo ressincronização.
Os primeiros ensaios clínicos a respeito da TRC,
publicados na década de 90, consistiram em análise observacional, em
pequena escala, com curto prazo de seguimento, de variáveis clínicas. Em
seguida, surgiram ensaios randomizados que incluíram a análise de
variáveis funcionais, mas ainda com curto prazo de seguimento. Os
achados globais desses estudos demonstraram redução significativa da CF,
melhora da qualidade de vida (QoL), incremento da distância no tempo de
6 min e do VO2 pico, sob TRC. Recentemente foram publicados os estudos
de larga escala, COMPANION e CARE-HF, randomizados e com desfechos
relevantes. O estudo COMPANION avaliou também o papel coadjuvante do
CDI, na sobrevida proporcionada pela TRC.
No final de 2006, um estudo metanalítico avaliou os
achados dos principais estudos relacionados à TRC: 8 grandes ensaios com
3380 pacientes em seguimento médio de 29,4 meses registraram 524 óbitos.
Os principais achados foram: redução da mortalidade, da taxa de
hospitalizações por IC, com valor de NNT estimado em 11.
A alta prevalência de TV/FV nos pacientes com IC
avançada e os achados recentemente publicados sobre prevenção primária
de MSC sugerem que candidatos à TRC também tenham indicação de CDI. Os
achados do estudo COMPANION constituem a maior evidência dessa
intervenção, registrando redução significativa da Mortalidade Total, por
efeito do CDI.
Apesar disso, para a tomada de decisões em política de saúde em
nosso, devemos aguardar novos estudos sobre prevenção primária de MSC na
TRC, com população mais estratificada.