As arritmias cardíacas são um problema relativamente
frequente que acometem crianças com coração estruturalmente normal ou
portadores de cardiopatias congênitas. O tipo de arritmia varia em forma
e frequência com a faixa etária. As possibilidades terapêuticas também
variam. É frequente, por exemplo, nos primeiros 6 meses de vida, nos
depararmos com a presença de flutter atrial, fato que não ocorre em
outra faixa da infância e adolescência (salvo em portadores de
cardiopatia congênita). Quando nos deparamos com uma criança portadora
de arritmia devemos analisar todos os dados clínicos e
eletrocardiográficos para chegarmos a um diagnóstico e consequentemente
a um tratamento adequado. A primeira dúvida frente a uma criança
taquicárdica é: Qual a frequência cardíaca para aquela idade? Para isto
utilizamos tabelas que nos auxiliam e são particularmente úteis quanto
mais nova e próxima do período perinatal está a criança. Quanto à
repercussão clínica, a avaliação pediátrica se concentra em sinais de
perfusão periférica, na gemência, na agitação psicomotora ou na
sonolência refletindo a perfusão cerebral. A segunda dúvida que surge é
se a taquicardia tem ou não complexos QRS alargados.
Devemos lembrar que as crianças possuem complexos QRS mais estreitos.
Assim, é possível (dependendo da faixa etária) que ao analisarmos o ECG,
arritmias com complexos QRS de 100 a 110 ms, devam ser interpretadas
como taquicardia de complexos QRS alargados.
Outra peculiaridade do jovem em relação ao adulto é a
importância que as síndromes eletrogenéticas assumem. O risco de morte
súbita no berço, por exemplo, vem motivando nos últimos anos um grande
esforço não só da comunidade cientifica como dos meios de comunicação
para o esclarecimento de suas causas. Neste grupo de doenças incluem-se
as síndromes do QT longo e curto, a displasia arritmogênica do
ventrículo direito, as taquicardias ventriculares catecolaminérgicas, a
Síndrome de Brugada e as arritmias secundárias a não compactação do
ventrículo esquerdo.
As cardiopatias congênitas representam uma parte
importante das arritmias cardíacas na infância. São diversos os tipos de
cardiopatia congênita assim como são diversos os tipos de arritmias
possíveis entre elas*. Outra forma particular de arritmia,
principalmente no período perinatal, é o bloqueio atrioventricular total
congênito que pode estar associado à elevada mortalidade. Seu
diagnóstico já no período fetal permite melhor programação terapêutica e
aumenta as possibilidades de sobrevida. No BAVT congênito a investigação
de Lúpus durante a gestação é de suma importância. A pesquisa de
anticorpos maternos anti RO e anti La permite antecipar o diagnóstico de
Lúpus na mãe em muitos casos. Para quem lida com estas crianças as
nuances das apresentações devem ser conhecidas. As limitações
diagnósticas e do arsenal terapêutico também. Esperamos que, em um
futuro próximo, estas barreiras sejam transpostas.