Hipertensão do Avental Branco

Dr. Giovânio Vieira da Silva

Sob supervisão do Dr. Décio Mion e Dr. Fernando Nobre

 

Caso 11:  K.F.M, 29 anos, médica, casada (com um médico), natural de Natal/RN, procedente de São Paulo/SP.

 

História Clínica: Paciente sem antecedentes de doenças prévias, refere que após atraso menstrual foi diagnosticada gravidez através de um teste β-hCG positivo. Na segunda consulta pré-natal, quando estava com cerca de 15 semanas de idade gestacional, foi verificado pressão arterial elevada (PA: 160/100mmHg). Realizou posteriormente aferições da pressão arterial em outras ocasiões sendo que na maioria delas a mesma encontrava-se normal (PA em torno de 110/60mmHg), com exceção de uma medida de 140/100mmHg realizada em ambiente de trabalho (Pronto–Socorro de Pediatria).

Exame Físico: BEG, corada

PA: 135/95mmHg  FC:98bpm     AC: RCR, 2T, BNF e sem sopros

Abdome: Plano, flácido, útero palpável entre a sínfise púbica e cicatriz umbilical (compatível com a idade gestacional). RHA presente. Sem sopros abdominais.

Membros: Sem edema.

 

A MAPA mostrou os seguintes resultados:

 

 

Valores Obtidos

Valores Normais Valores Limítrofes Valores Anormais
Pressão Arterial Sistólica Diastólica Sistólica Diastólica Sistólica Diastólica Sistólica Diastólica
Médias de PA vigília (mm Hg) 105 73 <135 <85 135-140 85-90 >140 >90
Médias de PA no Sono (mm Hg) 94 63 <120 <75 120-125 75-80 >125 >80
Médias de PA nas 24 h (mm Hg) 99 68 <130 <80 130-135 80-85 >135 >85
Diferença vigília-sono (%) 11 14 - - 10 10 - -
Cargas Pressóricas 24 h (%) 8,2 6,1 - - >50 >50 - -

 

Discussão

A Hipertensão do Avental Branco, definida como pressão arterial maior que 140/90 mmHg no consultório médico e valores médios normais (PA menor que 135/85 mmHg) na  monitorização ambulatorial diurna da pressão arterial, é um fenômeno relativamente freqüente na gravidez, podendo ocorrer em até 30% das mulheres grávidas1. Portanto, como no caso apresentado, seu reconhecimento é importante para evitar internações hospitalares precipitadas e  uso desnecessário de drogas anti-hipertensivas2.

Aliás, durante a gravidez, o uso da MAPA tem sua indicação mais precisa nesta situação, já que a capacidade da MAPA em predizer a ocorrência de Doença Hipertensiva Específica da Gestação (Pré-Eclâmpsia), embora interessantíssima do ponto de vista clínico,  é muito limitada3.

Apesar de algumas evidências apontarem para uma boa correlação entre a MAPA e a ocorrência de complicações peri-natais tais como baixo peso ao nascer, esses estudos ainda são controversos por mostrarem uma baixa sensibilidade (cerca de 40%) do método em prever tais complicações4.

 

Referências

1-     Bellommo G, Narducci PL, Rondoni F, et al. Prognostic value of 24-hour ambulatory blood pressure. JAMA; 282:1447-1452, 1999.

2-     O’Brien E, Coast A, Owens P, et al. Use and interpretation of ambulatory blood pressure monitoring: recommendations of the British Hypertension Society. BMJ; 320:1128-1134, 2000.

3-     Higgins JR, Walshe JJ, Hallingan A, et al. Can 24 hour ambulatory blood pressure measurement predict the development of hypertension in primigravidas? Br J Obstet Gynaecol; 104: 356-362, 1997.

Churchill D, Perry IJ, Beevers DG. Ambulatory blood pressure in pregnancy and fetal growth. Lancet; 349: 7-10, 1997.