Mapa em pacientes dialisados.

Dr. Giovânio Vieira da Silva

Sob supervisão do Dr. Décio Mion e Dr. Fernando Nobre

 

Caso 12: Paciente feminina, branca, 40 anos, procedente de São Paulo. 

 

Refere ter sido diagnosticado hipertensão arterial há 8 anos secundariamente a uma glomerulopatia primária caracterizada através de biópsia renal como Glomerulonefrite Esclerosante Focal e Segmentar (GESF). Foi mantida em tratamento conservador da insuficiência renal crônica por 2 anos com Enalapril 20mg/dia e Furosemida 80mg/dia até iniciar terapia de substituição renal através de hemodiálise 3 vezes por semana.

Após 2 meses do início da hemodiálise, houve bom controle dos níveis pressóricos, com a média da pressão arterial pré-diálise de 9 sessões consecutivas de 123/82mmHg, sendo suspenso o uso dos anti-hipertensivos.

No entanto, há 1 ano, verificou-se aumento persistente da média da pressão arterial pré-diálise para 158/93mmHg, a despeito da manutenção do peso seco estável  e do uso da mesma dose de eritropoetina humana (8000U/semana) para manter o hematócrito em 35%.

Diante deste fato, a paciente foi submetido a monitorização ambulatorial  da pressão arterial (MAPA)  após o término da segunda sessão de hemodiálise da semana e retirado após 24hs do exame.

 

 

Valores Obtidos

Valores Normais Valores Limítrofes Valores Anormais
Pressão Arterial Sistólica Diastólica Sistólica Diastólica Sistólica Diastólica Sistólica Diastólica
Médias de PA vigília (mm Hg) 105 75 <135 <85 135-140 85-90 >140 >90
Médias de PA no Sono (mm Hg) 101 68 <120 <75 120-125 75-80 >125 >80
Médias de PA nas 24 h (mm Hg) 103 72 <130 <80 130-135 80-85 >135 >85
Diferença vigília-sono (%) 2 10 - - 10 10 - -
Cargas Pressóricas 24 h (%) 5,4 2,8 - - >50 >50 - -

 

Discussão

A hipertensão arterial é extremamente freqüente em pacientes com insuficiência renal crônica em hemodiálise, acometendo entre 60% a 80% dessa população1. Devido a elevada prevalência, a hipertensão arterial contribui significativamente para a alta morbidade e mortalidade cardiovascular desses pacientes2.

Um dos grandes desafios da prática clínica é definir como monitorar de forma fidedigna a pressão arterial deste grupo de pacientes. A pressão arterial pré-diálise, que é usada habitualmente para a tomada de decisões terapêuticas, pode tanto subestimar como superestimar o nível da pressão arterial durante o período inter-dialítico quando comparadas com a MAPA e a MRPA3,4.

A MAPA por sua vez, é o método que melhor define a pressão arterial destes pacientes, visto que tem boa reprodutibilidade quando comparada com a pressão arterial pré e pós-diálise, além de melhor correlação com lesão de órgão-alvo3,5.

O caso descrito ilustra uma situação que deve fazer parte do diagnóstico diferencial dos pacientes em hemodiálise em que a MAPA e a MRPA foram de fundamental importância: a hipertensão do avental branco6.

A hipertensão do avental branco, caracterizada como a elevação persistente da pressão arterial quando avaliada pelo médico e valores normais quando avaliada pelo paciente em casa ou pela MAPA, tem uma prevalência na população geral que oscila em torno de 20%7. Porém, a sua freqüência em pacientes em hemodiálise é desconhecida.

Em nosso serviço (Hospital das Clínicas da FMUSP), num grupo de 28 pacientes em hemodiálise há pelo menos 6 meses e que tinham o diagnóstico de hipertensão arterial  pela pressão arterial pré-diálise superior a 140/90mmHg,  quando submetidos a MAPA e a MRPA, apenas o presente caso foi diagnosticado como hipertensão do avental branco (prevalência de 3,5%).

Apesar da baixa freqüência nesta amostra, a  importância da hipertensão do avental branco não deve ser subestimada neste grupo de pacientes, visto que a introdução precipitada de medicamentos anti-hipertensivos ou tentativas intempestivas de diminuição do peso seco nesta situação, podem trazer, além dos efeitos colaterais inerentes das próprias medicações,  um aumento da freqüência dos episódios de hipotensão intra-dialítica com todos os seus efeitos deletérios para o paciente.

 

Referências

1- Mittal SK, Kowalski E, Trenkle J, Macdonough B, Halinski D, Devlin K et al. Prevalence of hypertension in hemodialysis population. Clin Nephrol 1999; 51:77-82.

2- Hörl MP, Hörl WH. Hemodialysis associated hypertension: pathophysiology and therapy. Am J Kidney Dis 2002; 39:227-244.

3- Mitra S, Chandna SM, Farrinfton K. What is hypertension in chronic haemodialysis? The role of interdialytic blood pressure monitoring. Nephrol Dial Transplant 1999; 14: 2915-2921.

4- Agarwal R. Role of home blood pressure monitoring in hemodialysis patients. Am J Kidney Dis 1999; 33: 682-687.

5- Tucker B, Fabibina F, Giles M, Thuraisingham RC, Raine AEG, Baker LRT. Left ventricular hypertrophy and ambulatory blood pressure monitoring in chronic renal failure. Nephrol Dial Transplant 1997; 12: 724-728.

6- Stragier A. White coat hypertension in haemodialysis: the role of nurse' dresses. Nephrol Dial Transplant 1999; 14: 861-862.

7- Pierdomenico SD, Schillaci G, Boldrini F. "White coat" hypertension associated with newly diagnosed hypertension: evaluation of prevalence by ambulatory monitoring and impact on cost of health care. Eur Heart J 1995; 16:692-697.